eu sei das vantagens de partir
e ainda partir me dói
eu sei de destinos que serão melhores
e ainda queria ter destino nesse sertão
eu sei que serei mais feliz longe
e você, mais feliz com ela
mas ainda queria um feliz nosso
a ainda sua ausência está aqui.
eu sei das vantagens de ficar
e ainda preciso ir-me embora
eu sei da madrugada intocável
e ainda quero a noite de perigos
eu já me soube feliz aqui
e você, feliz ao meu lado
mas o sorriso aos poucos morreu
e ainda nosso silêncio não está lá
e se dividida sou um riacho morto
ainda pode um rio ver novos tempos
inteira aqui nunca conheci águas
e ainda o deserto é uma realidade só.
se eu pensar que o bom
o bom mesmo, é ser Jaqueline
e morrer menina, pura como os anjos
isso é um desejo suicida
uma admiração desmedida
ou só nostalgia antecipada?
Enquanto andava de bicicleta em sonho
vi que suas mão transformavam
as gotas que pingavam da pia
num rio vermelho.
Quis dar um mergulho
e fingir-me sua
mas os planetas
(não lembro bem se Júpiter,
Netuno ou Plutão)
me pediram, em segredo,
pra ter calma
ou medo.
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Nunca morrerei
Minha maior redenção
- e desespero -
é saber a não existência
do zero absoluto.
Não existe descanso
Nem paz eterna
Existem montanhas fixas
que se unem, se separam,
e imutáveis geram filhos
e ganham novos picos
tornando-se cordilheiras.
escritos mais diarísticos do que artísticos.
Pessoas são infinitas. Eu queria poder fazer versos que expusessem ao mundo essa minha verdade poética. Não posso. A vastidão das pessoas não se traduz em rimas. E é tão enlouquecedor pensar nisso como em qualquer outra questão sem resposta: o absoluto da incomunicabilidade entre os homens; a função da arte; a própria sombra.
Engraçado isso, deparada com tantas questões mais importantes paro para me perguntar até que ponto é interessante dizer ao mundo que eu me admiro e me amo. Mas será que não é evidente que eu amo o jeito que sou? Se não amasse, seria diferente, não? Não. Tem gente que acredita que não se pode mudar o que se é. Talvez não se possa mesmo. Mas ainda não vou me sentir arrogante por dizer que sinto orgulho de quem hoje sou. Me recuso a tal comportamento. Me recuso a me censurar antes mesmo da possibilidade de me sentir inteira: e isso nem quer dizer que me sinta melhor do que qualquer outra pessoa. Amo a infinitude de qualquer pessoa que se descubra maior do que qualquer número. Do que todos os números. E é. E somos.
Hoje me reapaixonei por uma Manoela do passado. (E aí pensei: “é feio a gente dizer que se ama?”) A Manoela do passado por quem hoje senti essa ternura imensa é aquela que me diz que o tempo vai me declarar rainha do meu próprio saber. Deve ser verdade o que pensava essa moça. Acho que tinha alguma coisa a ver com trilhar os próprios caminhos e descobrir as próprias verdades. Fui descobrindo verdades, e mentiras, e dúvidas maiores do que abarcam todas as verdades e mentiras somadas. “Talvez’s” que são maiores e mais fortes que uma gangue de “sim’s” e “não’s”.
Minha verdade de hoje (como não agradecer ao tempo pela possibilidade de vê-la?) é que as pessoas são infinitas. Inventei um filho hoje. Era uma espécie de exercício de auto conhecimento. Já pedi em uma mesa de bar a uma amiga que inventasse-me alguém. E ainda que ela não tenha me contado, sei que pariu um filho que nunca existiu só por vislumbrar a proposta. Ou talvez nem todas nossas invenções sejam filhos nossos. Ela me dirá.
Fato é que esperava um amigo que me encontraria e inventei um filho. Estava brigando com ele por ter derramado o leite pra fora da bacia do cereal. O sorriso dele era parecido com o meu. Era o que seria o meu sorriso se eu fosse um menino de 4 anos. Quase esquizofrênica mas ainda poeta a brincadeira de mim pra mim mesma era descobrir tudo que pudesse sobre esse menino. O tamanho das mãos dele e a maneira como elas tocam minha mão. O jeito das unhas. (Será que eu brigaria com ele por mantê-las sempre sujas?) O tom de voz, o jeito de dizer mãe. (Será que é verdade que cada filho chama a mãe de um jeito?) Fui imaginando cada pedacinho desse ser que não existe, e no inventar vi o tamanho que é essa coisa que existe dentro de mim. Imaginação. Criatividade. Talvez só saibamos acessar parte disso. Talvez todos nós não tenhamos tempo o suficiente para descobrirmos nossa própria infinitude.
Me senti pequena, de frente a tudo isso. Como se nada eu pudesse fazer para me expressar melhor. Eu não conheço nem meu próprio filho. E ainda que ele nem exista, isso é uma falha das mais graves. Como posso pretender fazer qualquer tipo de arte se não percorri ainda todos os meus próprios caminhos? Gosto de pensar que o interior de uma pessoa é como um pequeno planeta de sentimentos, amores, ódios, vinganças não realizadas e desejos ardentes mergulhados em oceanos profundos. Florestas de gostos e cheiros, geografias de sensações. Aos poucos viajo dentro de mim para entender os meus invernos, verões, cheias, e terremotos. E aí, de repente, me transporto para outro pequeno planeta, com florestas diferentes, oceanos diferentes, geografias desconhecidas.
Quanto mais se caminha mais se descobre que nunca caminharemos um mundo todo. Quanto mais se conhece de alguém (mesmo que de nós mesmos) mais se descobre o desespero e a beleza que é não ter fim. Hoje, acordei com vontade de beber um mundo em goles de fome. Um mundo que não fosse meu. Descobrir um infinito novo. Lembro de começar a descobrir a matemática dos inteiros, naturais, irracionais e Deus-sabe-mais-o-que. Lembro da fascinação da descoberta de infinitos infintos e cada infinito novo, e diferente, e explorável. Se eu nunca me tornar uma estudiosa da matemática mas virar uma estudiosa desses outros conjuntos será que um dia viro poeta?
Uma pilha de alergia. (Publicado com o Instagram)
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muitas mulheres.





